terça-feira, março 14, 2017

NASCENTES 02



Águas das veredas urbanas
Afogam-nos em subterrâneos
Sejam Onça ou Arrudas:
Animal ou planta muda
De espantar gente mundana
E maus espíritos contemporâneos.

“Deixe o Onça beber água limpa”,
Plante Arruda na rua e na calçada.
Água suja ou água limpa
Saem bem na foto ou na fita,
Indistinguíveis pelo som da cascata,
Diferentes na clareza da vida.

Em caso de desorientação
Procure a estação
Seja inverno ou verão.
Para São Gabriel ou bifurcação
O amor é infalível se bem amarrado,
Aposte e espere o resultado.
Quizomba ou água benta
Yemanjá sempre nos alimenta.

Água de tubulação
Corre solta na estrada
Escorre pelo ralo da calçada
Alivia o poço da construção
Deixa o fluxo da circulação
Registra o som da observação.

Nesta lagoa eu não nado
Sapo não molha o pé,
Não molha o pé porque não quer?
Mas o vento que lá lamenta
Sob um sol que arrebenta
Gira a coroa da escultura
Levanta o escritor da sepultura.

Onde tem nascente
Se aproxima toda gente.
“Cinema é cachoeira”
Mas eu não filmo cachoeira
Filmo metáforas e vento quente.
Meus elefantes carrego nas costas
Na sala só minhas marmotas.

Mas a chuva, temos que falar da chuva
Ela precisa cair neste sertão
Pois conecta sagrado e profano
Mesmo que depois entre pelo cano.
Yemanjá, mãe de santo, preto velho,
Meus ancestrais caboclos e caiporas,
Deuses de todos os matizes
Jorrem a chuva neste chão agora
Deixem todos seus filhos felizes.

E a água, minha gente,
Faz sua trilha como serpente
Até o mar desde a nascente
Carrega o sujo da cidade
Lava a alma da maldade
Sobe morro por capilaridade.
Feche, moço, essa torneira,
Mate sua sede costumeira
Deixe a água seguir corredeira.



quinta-feira, fevereiro 16, 2017

CURA DE CORAÇÃO PARTIDO


Para um coração partido
Parece que tem pouco jeito
Recoloque-o dentro do peito
Esqueça o tempo sofrido.

Amarre todas as pontas
Com uma fita de plástico
Senão, serve um elástico,
Ou uma corda de contas.

Quando ele se acomodar
Abra logo um sorriso
Ponha a mente no siso
Dê um tempo a sonhar.

Logo verás outro coração
Caminhando sorridente
Falando tão docemente
Que reacenderá a paixão.

Recomponha-te, meu amigo,
Cura do coração partido
É outro coração bandido
Pronto para seguir contigo.


quarta-feira, fevereiro 15, 2017

NASCENTES 01


Águas das veredas urbanas
circulam e se perdem,
reencontram-se em rio ou mar:
ou evaporam-se, poluem-se,
escondem-se em subterrâneos
seja Onça ou Arrudas,
animal ou planta
de espantar gente
de qualquer espírito.

domingo, fevereiro 05, 2017

ANÚNCIO


Minha bicicleta Peugeot,
dez marchas,
quarenta anos de uso,
tem manchas na pintura
que só pintura nova resolve.
Não a pinto,
gosto de suas manchas.

Minha bicicleta Peugeot,
dez marchas,
eu a trouxe da França.
Foi presente de um amigo
de uma amiga.
Não a usava mais.

Minha bicicleta Peugeot,
dez marchas,
levou-me a Versalles
às matas de Rambouillet
às margens da Pampulha
e outros lugares.

Minha bicicleta Peugeot,
dez marchas,
não é dessas modernas,
leves de fibra de carbono:
sempre chego por último
em corridas.

Minha bicicleta Peugeot,
dez marchas,

NÃO ESTÁ À VENDA.

quarta-feira, dezembro 14, 2016

TEXTO E CONTEXTO



Atrás do texto tem o contexto
Antes do braço fica o antebraço
Após o gosto vem o desgosto
            (ou antes?)
Acima do peso tem sobrepeso
Abaixo do solo há o subsolo.
É na terra que se desenterra
A desnaturada natureza.
Em sua boca desemboca
O desjejum do desamor
Embora despeito se desiste em meu peito
Apenas carrego a desfaçatez
De fazer o descarrego
De minhas desventuras
E viver minhas alegrias
Com maestria desregrada
Já que regras mudam
Com a despolitização dos saberes.


quinta-feira, setembro 22, 2016

CURTA 275


Quando morrer
não quero céu nem inferno:
quero ir para a montanha
(religião não tenho). 
Olhar o horizonte do alto da serra.

domingo, setembro 11, 2016

CURTA 274


Não me adapto ao leito de Procusto
nem por isso quero ter as pernas cortadas.
Grande sou, grande permaneço.
Maior que eu físico sou eu pensador!