sábado, setembro 30, 2017

RELEITURA ROSEANA 25


A chuva veio, enfim,
apaziguar carência de terra
depois de muita reza
em cem dias de sequidão.
Reza rezada com descrença?
Dança da chuva embolada na poeira?
Sei não! Mas desconfio dos deuses.

Nesse entremeio, ficou o receio,
no interno da coragem,
nas reticências do corpo,
no calo do coração,
de escutar e contar
coisas divagadas, devagar.

Faca se afia no rela-rala
com outra faca.
Pedras rolam e também se ralam
e se arredondam no raso do rio,
tão raso, na seca das águas.

Mas a chuva veio
no tempo que desmente
minha antiga mocidade.
E me mata de saudade
de minha mulher neblina
que me anuvia os olhares
olhando o distanciado ocaso,
onde o pensamento é mais forte
que o coração do lugar.

quinta-feira, setembro 28, 2017

RELEITURA ROSEANA 24


Ela está a frigir bolinhos,
Ele os come entre infinilhões de sorrisos.
Parecem girar, em eixos próprios,
Atados em cordões imaginários
Colocados em órbita na roda da vida,
Com corações em queda de cachoeira.

O medo, no entanto, se gasta
Nas garras do incompreensível
Nas alertantes cheias do rio.
E o coração discorda
A cada sete batidas
Taquicardiando nas fatalidades
De todas as incertitudes.

Todavia, as cordas se reatam
Entre cheia e vazante do rio.
No barulho do frigir dos bolinhos
Corações se amornam e se aquietam
Cachoeiras se apaziguam ao anoitecer
Corpos se amolecem no luzidio do quarto
Relaxam no pertencimento do outro.

sexta-feira, setembro 22, 2017

RELEITURA ROSEANA 23


Três vezes em minha vida
Passou por perto a felicidade,
Sempre nas horas de descuido.
Sou feliz depois da tempestade?
Alegria vem quando de mim cuido,
Horas que ao coração dou guarida.

O rio, de muito, carrega luares
Iluminando coisas no cabimento.
Navegável a barquinhos, nos lugares,
Conduzindo seres em pensamento,
Levando, em suas águas, sabores
De todos os beijos de meus amores.

Coisas me espantam na véspera
No antes da oratória do mensageiro
Que boas notícias me traz do passado!
No rio, o luar é passageiro,
Noitinha vem no ajuizado
Manhazinha chega, e eu na espera
De quarto possível alumbramento
Explodindo em mim, num raso momento.

quinta-feira, setembro 14, 2017

RELEITURA ROSEANA 22


Canoas cabotando em desordens
Despropósitos de navegações
Canoeiros em roupagem de pompas.
Chuvas de águas passadas
Desaguam em rios em trombas
Provocam atrocidades descabidas
No horizonte das cheias desalinhadas

Só me convenço quando me calo
Se não o sei, aí que falo
Sem a mordaça dos conhecimentos
Na morte do inimigo nem me alegro,
Nem levanto meu chapéu negro.

Canoas carregam humanos e outros
De todas as esperanças amanhecidas
De todas as rupturas esclarecidas
De todas as crenças compadecidas.

Promove remador a Almirante
Desde que reme num rompante
De precisão e raiva emudecida
E leve sua coragem engrandecida.

Mas rio não dá paz a canoeiro
O lava e o leva, num nevoeiro,
A triste final, o derradeiro.

domingo, setembro 10, 2017

RELEITURA ROSEANA 21


Todos deveriam contar sua história
pois modo de contar
depende do, único, olhar.

O olhar dela, madura,
tinha ou alegria divina
ou tristeza soturna
esmaecendo a quase belezura,
quase flor em luz noturna.

Olhar que não cala a ternura.
Essa, em monossílabos recomeça,
no tempo que finge que passa
trazendo saudade sem moldura,
apenas saudade, sem usura.

Porque o hoje se realiza,
no tempo que finge que passa?
Só o hoje a individualiza
para o amanhã que se argamassa.

Aí se reconta sua história
quando Amor surge a cavalo,
reorganiza sua íntima memória
faz de sua vida um regalo
e o tempo ainda finge que passa.

quinta-feira, setembro 07, 2017

URDUME


Clara tecia, todo dia,
a trama que lhe cabia. 
Ligava fios, cores, 
desenhos do tecido acabado, 
e o urdume se fazia
e se refazia 
a cada movimento no tear. 
O que Clara não sabia, 
mas intuitivamente percebia, 
era que ali também se traçava 
o urdume de seu dia a dia.

terça-feira, setembro 05, 2017

RELEITURA ROSEANA 20


Não me pergunte
que eu lhe respondo;
não me olhe 
que eu lhe miro;
não me fale 
que eu lhe escuto -
desfalo em respostas.
Aconchegue-se que eu lhe asssunto.
Defino sem declarar,
cismo em indefinições.

Palavras maiores que declarações:
cuidado com suas palavras,
elas contam mais que apresentam.
O dito não volta desdito,
o escrito se decodifica
em citações preambulares.
Forças aleatórias
a serviço do sensível.

Não me olhe
que eu lhe escuto;
não me responde 
que eu lhe pergunto;
não me assunte
que eu lhe defino.
Defino sem declarar,
a serviço do sensível.