sexta-feira, novembro 24, 2017

CURTA 277

Eu tenho vários passados
nenhum deles me assombra
nenhum deles é minha sombra.
Minha luz vem com o amanhecer
carrego-me dela como célula solar
para brilhar ao anoitecer.

quarta-feira, novembro 22, 2017

RELEITURAS ROSEANAS 26


Coragem renasce na prática
Quando se cansa do medo
Quando o futuro parece escuro
E estranho para memórias.
Pedras do caminho rolam por justiça
Rios se entregam à paisagem
Cortando veredas entre montanhas.
Águas se deitam sobre terra
Feito mulheres vestidas de noiva:
Assim se revelam em fotografias.
Meu sacolejado sorriso
Se dissimula facilmente
Em bem-aventurado bocejo
Nos amanheceres mal dormidos.

Gostaria de escrever palavras soltas
Mas, poetas, maioria das vezes,
São trapaceiros dos vernáculos.
Encontram palavras amarradas
Nas narrativas alheias
E as subvertem, irresponsavelmente,
Construindo outros dizeres.

Tudo tem preço bem caro
Quando frases se voltam
Contra o contador falseante.
Seu mundo, do lado de cá,
Se corrompe em insolências.
E o outro lado do portal do tempo
Se esclarece em reminiscências.

E o autor da obra, onde está?

sábado, novembro 11, 2017

OBJETOS 54

Objetos para sobrevivência mundana:
telefone para comunicação online
mesmo quando a luz se apaga;
bloco de notas para relatório 
quando a ilusão se acaba;
tambores frenéticos à noite
tocam para uma lua vaga.

sábado, setembro 30, 2017

RELEITURA ROSEANA 25


A chuva veio, enfim,
apaziguar carência de terra
depois de muita reza
em cem dias de sequidão.
Reza rezada com descrença?
Dança da chuva embolada na poeira?
Sei não! Mas desconfio dos deuses.

Nesse entremeio, ficou o receio,
no interno da coragem,
nas reticências do corpo,
no calo do coração,
de escutar e contar
coisas divagadas, devagar.

Faca se afia no rela-rala
com outra faca.
Pedras rolam e também se ralam
e se arredondam no raso do rio,
tão raso, na seca das águas.

Mas a chuva veio
no tempo que desmente
minha antiga mocidade.
E me mata de saudade
de minha mulher neblina
que me anuvia os olhares
olhando o distanciado ocaso,
onde o pensamento é mais forte
que o coração do lugar.

quinta-feira, setembro 28, 2017

RELEITURA ROSEANA 24


Ela está a frigir bolinhos,
Ele os come entre infinilhões de sorrisos.
Parecem girar, em eixos próprios,
Atados em cordões imaginários
Colocados em órbita na roda da vida,
Com corações em queda de cachoeira.

O medo, no entanto, se gasta
Nas garras do incompreensível
Nas alertantes cheias do rio.
E o coração discorda
A cada sete batidas
Taquicardiando nas fatalidades
De todas as incertitudes.

Todavia, as cordas se reatam
Entre cheia e vazante do rio.
No barulho do frigir dos bolinhos
Corações se amornam e se aquietam
Cachoeiras se apaziguam ao anoitecer
Corpos se amolecem no luzidio do quarto
Relaxam no pertencimento do outro.

sexta-feira, setembro 22, 2017

RELEITURA ROSEANA 23


Três vezes em minha vida
Passou por perto a felicidade,
Sempre nas horas de descuido.
Sou feliz depois da tempestade?
Alegria vem quando de mim cuido,
Horas que ao coração dou guarida.

O rio, de muito, carrega luares
Iluminando coisas no cabimento.
Navegável a barquinhos, nos lugares,
Conduzindo seres em pensamento,
Levando, em suas águas, sabores
De todos os beijos de meus amores.

Coisas me espantam na véspera
No antes da oratória do mensageiro
Que boas notícias me traz do passado!
No rio, o luar é passageiro,
Noitinha vem no ajuizado
Manhazinha chega, e eu na espera
De quarto possível alumbramento
Explodindo em mim, num raso momento.

quinta-feira, setembro 14, 2017

RELEITURA ROSEANA 22


Canoas cabotando em desordens
Despropósitos de navegações
Canoeiros em roupagem de pompas.
Chuvas de águas passadas
Desaguam em rios em trombas
Provocam atrocidades descabidas
No horizonte das cheias desalinhadas

Só me convenço quando me calo
Se não o sei, aí que falo
Sem a mordaça dos conhecimentos
Na morte do inimigo nem me alegro,
Nem levanto meu chapéu negro.

Canoas carregam humanos e outros
De todas as esperanças amanhecidas
De todas as rupturas esclarecidas
De todas as crenças compadecidas.

Promove remador a Almirante
Desde que reme num rompante
De precisão e raiva emudecida
E leve sua coragem engrandecida.

Mas rio não dá paz a canoeiro
O lava e o leva, num nevoeiro,
A triste final, o derradeiro.