sábado, dezembro 23, 2006

Homens, Mulheres


Carros nas ruas largas
nas horas estreitas
nas casas de telhas dobradas
sob o sol a pino.
Meio dia.
Um dia e meio
ocupou-me essa viagem
aos olhares barrocos
esquinas ouropretanas
de Barro Preto a Ouro Preto
caminhos de asfalto
e pedras
e montanhas
e riachos velhos
e moças novas nas estradas
umbigos à mostra.

Os pretos de Ouro Preto
nem são pretos.
Os brancos de Ouro Branco
nem são brancos
os pardos de Rio Pardo
nem são pardos.
Os vermelhos de Ribeirão Vermelho
nem são vermelhos.
Os bonitos de Riberão Bonito
nem são bonitos.
Mas os homens (e as mulheres)
da Terra dos Homens (e das Mulheres)
são todos homens (e mulheres)
pretos, pretas
brancos, brancas
pardos, pardas
vermelhos, vermelhas
bonitos, bonitas
Homens, Mulheres.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Cansaço da poesia


Uma de minhas poetas preferidas cansou de ser poeta;
Malcriação de criança,
Darei uma resposta apenas.
Não serei delicado
Nem curto
Nem grosso.

Tu não tens mais o poder de decidir
Entre ser ou não ser poeta.
Cansada ou não tu ÉS poeta.
Todos que te acompanham
Em teu blogfúndio já definiram
Rotularam
Mediram
Se emocionaram com teus escritos:
Tu És poeta. E das boas.
E todas as emoções que eu tive,
jogo-as onde?
E todas as frases que te dediquei em resposta,
apago-as?
E todas as vezes que te amei entre linhas e letras,
sublimo-as?
Crises passam.
Eu fiquei dez anos sem escrever linha.
De repente, um olhar e um sorriso
(e um beijo) de uma certa mulher (outra):
Recordei que escrever é necessidade básica,
Fruição exigida pelas minhas vozes interiores.
Escrever é exercício de sanidade.
Portanto, escreva.
Mas se não tiver mesmo vontade
Dê um tempo
Até tuas inquietações se domarem.

Pode me xingar de poeta


Quando alguém quiser me xingar
pode me chamar de poeta:
ou vagabundo
ou idiota letrado
ou mercador de prosopopéias
ou batráquio de palavras
ou empacotador de metáforas
ou escritor de frases sem nexo nem plexo
ou amante de divas da verborréia
ou sonhador de inconveniências
ou filósofo de adegas envinagradas
ou escrutinador de pleitos impossíveis.

Tanto faz
dá tudo no mesmo.

Mas o que eu sou de fato?
Criador de calangos
colecionador virtual de assobios de pássaros livres
observador das fendas do cotidiano.

Preguiçoso nato.
Trabalho apenas para manutenção do ócio.


sábado, novembro 18, 2006

Elixir da juventude



Hoje conheci um cara
de noventa e dois anos de idade.
Alegre
jovial
saltitante
feliz.
Uma pergunta:
que te faz tão jovem?
qual o elixir mágico da alegria de viver
e se mostrar tão feliz?
Simples, ele disse.
É só ficar de olho nas meninas
e segui-las
como se os sonhos
se localizassem em suas curvas
e nos seus caminhares.

Lições de sabedoria!

quinta-feira, novembro 09, 2006

BARREIRA E FENDAS II



Função de artista:
criar universos paralelos
inusitados e instigantes
convites à imaginação e devaneios
com passagens indizíveis
através de fendas
invizíveis
a quem nõa tem olhos
de ver o indefinível.

Mas as fendas existem
na curvatura dos universos
nas ranhuras das peças
no caminho das luzes
nas veredas das frases
nas margens das músicas
entre formas suntuosas
nos cortes das superfícies ilimitadas
nos pontilhados negros dos desenhos
nas esculturas cravadas no espaço
no movimento imprevisível dos corpos.

Sem fendas não tem arte
nem artista.
Nas fendas das artes
penetra o insondável.
Sem fendas não tem ciência
nem cientista.
Nas fendas das ciências
penetra o observável
ampliando rupturas
nos hímens permeáveis
das barreiras
outrora intransponíveis.


quinta-feira, outubro 26, 2006

Tesão de aprender



Tem coisas
que prefiro não saber
como fazer.

Se as sei,
faço-as superficialmente
automaticamente
sem pensar
em como fazer.


Se não as sei
faço-as indo ao fundo
de cabeça
para aprender a fazer
bem feito.

Aprender dá tesão.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Maldição latino-americana



Viver em lugar nenhum
ter senso de deslocamento
ser estrangeiro em qualquer lugar
é maldição latino-americana.

Viver é adaptar-se à solidão
transigir os afetos
transceder os solipsismos
fugir dos ruídos internos
buscar o silêncio dos amálgamas
das cáries dentárias
criar verosssimilitudes no cotidiano
singularidades no acaso.


Silêncio em cores



Silêncios plásticos
eloqüência dos vazios
vocação para o deserto:
aprendizagens com o envelhecer.

Aprender é mudar de comportamento
Morosidade e passos lentos
ganhos da terceira idade
na aprendizagem da convivência
com a lentidão dos calcanhares
com códigos de palavras não ouvidas
com a simbologia dos entreolhares.

Conviver com os silêncios
é sonhar em cores sérpia:
ouvir apenas os quereres
vindos do interior da epiderme
ou os rumores desenhados
nas contra-luzes das rugas
no rosto vincado de sabedoria.

Todos os mistérios vêm das sombras,
é na penumbra que nos desnudamos.
Tom pastel dos silêncios
brinca na memória dos bem vividos.

Sem cartas


Não posto mais cartas:
as envio por correio eletrônico.
Cartas para amigos da Europa
viajam dez dias.
Na perda desta sincronicidade
talvez mudemos de idéia
ou mudemos de humor
ou mudemos de cara.
Não carrego a mesma cara sempre.
Crescem-me o bigode
a barba
o cavanhaque.
Corto os cabelos
fico uma semana sem banho.

Cartas enviadas pelos correios
não contam aos amigos
estas variações de visagem
e de personalidade.


OITENTA ANOS



Pergunta para minha mãe:Quando a gente oitenta

A gente se tenta


Ou se senta?

domingo, outubro 08, 2006

BARREIRAS E FENDAS



A fenda não é a questão:
é o caminho
a vereda
a descoberta
o passo possível de ser seguido
a trilha a ser percorrida
apesar de toda imprevisibilidade
dos caminhos desconhecidos
a serem desbravados.


A questão é a fronteira,
a barreira a ser transposta
o obstáculo (in)transponível.
Superação da barreira
exige esforço
transpiração e inspiração:
limite e criação
onde arte e ciência se juntam.


sexta-feira, outubro 06, 2006

Memórias do futuro



Memórias do futuro
se escrevem agora
no esquecimento do passado
naqueles objetos perdidos
ao apagar das luzes do tempo de hoje
nas pegadas dos povos migrantes.

Esquecer é sobreviver:
lembrar?
apenas o que fazer

nos intervalos
entre pensar e agir.

O melhor do passado?
Ele passou,
algumas marcas evidentes deixou
tatuadas nos corpos

como rugas
como verrugas
como câncer de pele
como efizemas na epiderme
como brotoejas:
ou uma flor nos jardins das praças
das metrópoles dos fragmentos.

O futuro começa
no instante depois do verso
no primeiro beijo depois do encontro
na estória que se conta agora.

Amanhã visitei o caderno de viagem
escrevi um poema
sobre a memória de hoje.
Amanhã planejei
onde colocar meu passado:
que ele me perturbe não quero.

Memórias do futuro
suplementos da vida
complementos da alma:
aquela que provavelmente ainda terei
depois dos relatos de viagem
nos tempos de criar raízes.


domingo, outubro 01, 2006

Poema singelo



Se te dói o dente
mastigues gelo;
Se o espelho diz - feio,
mudes o corte do cabelo;
Se sentes frio à noite
deixes crescer o pelo
ou me uses como cobertor;
Se precisas de companhia
eu te cuido com zelo;
Se tens perguntas sérias
te respondo com desvelo;
Se me convidas para vadiar
vou tirando o chinelo
te banho em caramelo
te levo a sonhos em amarelo
outras cores eu tiro do prelo
para imprimir em teu corpo
sol nascente em castelo.
Amanhã, se nescessário,
desfazemos o elo
das correntes metafóricas
que nos une pelo cerebelo.


sábado, setembro 30, 2006

Vidas e corridas


A vida é uma tomada de tempo
de qualquer corrida
seja de cavalos
ou de carros velozes.

Você pode ir rápido
ou desacelerar.
No fim dá tudo no mesmo:
é uma questão de estilo
e de potência do propulsor.

Estou numa fase de desacelerar

mas eu me recuso
a não passar a reta de chegada
numa colocação honrosa.

segunda-feira, setembro 25, 2006

respostas virtuais

Respostas virtuais aparecem
do corriqueiro da vida
do rastapé cotidiano
dos olhares pelas janelas indiscretas
do beabá das inocências perdidas
da decodificação do livro da natureza
(preciso aprender a ler).

Este poema pretende-se
clássico de humor mestiço
respostas não existem
só perguntas merecem
um pouco de nossa atenção.

Metáforas áridas

Não sou árido nem úmido
Dostoiévsky é árido
Tostói é úmido.
Impossível transformar
Mundo e vida
Simultaneamente
Sincronicidade inexistente
Temporalidade renitente
Cronografias rabiscadas
Em papel de parede
Marcas de acidez
De vidas relutantes
Ensaios perdidos
Em memórias incansáveis
Passado e futuro se aproximam
No dia de hoje
Mundo e vida
Dentro e fora do corpo
Tais elásticos dialogam
Tensões existenciais inexplicáveis
Entre meu eu
E meus calangos.
Metáforas áridas impossíveis.

Luz e sombra

Desorientação
Dúvida
Descoberta
Surpresa
Sequência natural da busca
Luz e sombra se aproximam
Nas frestas imaginárias
Onde passa a perfeição
Eclipses não descortinam
Veredas
Relações nos pontos de inflexão
Ganham pontos de interrogação:
Voltas longas por trás das montanhas
Ou atalhos pelos túneis escuros
Encontro com novas luzes no final?

sexta-feira, setembro 22, 2006

Linha torta



Eu sou a linha torta
perdida nos planos inclinados
rabiscada por mãos incrédulas
invejosas de retas
e pontos de exclamação!

O que eu prometo
de vez em quando eu cumpro.
O que eu solfejo
de vez em quando vira música
de tocar nos bailes.

Tenho fome de mim
e de tudo que se prenuncia
para depois do fim
dos recitais das cortes
do rei sol primeiro
grande astro de luz

Encomendo sorrisos de sorrideiras
para o dia de meu nascimento.
Quero récitos e alegorias
de carnaval.
Que tudo recomece
principalmente as ilusões.


domingo, setembro 17, 2006

Pedalando bicicletas líquidas


A Terra é muito grande lá fora, cara!
Eu queria estar no país dos cafezais
Vejo plantações de trigo
Fico em meu quarto.
Não adianta procurar aqui fora
O que dentro está.

Homem é animal perdido no tempo
E no espaço de suas indiosincrasias
Não sabe seu lugar no mundo
Tem medo da morte
Reza para que ela demore.

Meus sonhos parecem durar horas
Mas tudo se passa em segundos
Significado da vida é vida
Porque tanta procura de significados
Escondidos sob as pedras
Na luz que emana do cérebro
No esquecimento da realidade
Nas frestas dos tijolos?

Nas frestas
Onde o olhar não penetra
Onde a poeira corrompe a arte
E sombras mostram limites.

Liberdade é para quem a vive
Pensa e pratica.
Não pode ser uma palavra no papel,
Talvez um quadro na parede
Ou sementes de girassol para pássaros.

Quero ver o mar
Transbordando em luz do amanhecer
(Um banho me fará bem)
Quem sabe rolar na areia
Sentir em casa
Em qualquer lugar da Terra.
Sinto-me ainda melhor
Pedalando nas águas
Bicicletas líquidas.

Boas músicas não são precisas
Deixam lugar para o inexplicável
E terminam em grandes silêncios
Como pretende esse poema.


Vida não tem bis


A vida é dura
Mas não tem bis
Então relaxa e goza.
Longe de casa
Rotina vira ao avesso.
Carrego o germe da poesia
Para plantá-la em outras praças
De outras cidades
No coração de outros povos.
Homens sensíveis são rotulados
Tão prontos
Como pessoas não normais.
Inveja de canastrões.

Fogo das reminiscências



Guerra surda
Travamos com nós mesmos
Nosso íntimo
Nossa pele curtida
Rugosidades provocadas pelos sóis
E ventos norte e noroeste.
[Aqui no sul, dizem, são ventos perigosos]
Meu governo de mim foucaultiano
perde seus espaços
pelo governo antidemocrático dos outros.
Que poderes tenho
Para polir as arestas
Destas armas e armadilhas
Articuladas nos jogos de outros poderes
Sobre os quais meu discurso de bom moço
Não cola nem descola?
Mudar os discurso?
Construir narrativas engajadas?
Fazer campanha para voto nulo?
Tornar-me apolítico?
Deixar crescer os cabelos
Como nos tempos do psicodelismo itinerante?
Indigo blues são vendidos em hiperlojas
Rock’n roll progressivo quase não toca mais na rádio
(as que tocavam fecharam sem nos consultar).
Estradas são muito perigosas hoje.
Evolução não nos deixa ter saudades
Melhor entrar de vez na era da tecnologia
E da informação
Nossa memória também é banco de dados
Armazenados para quando tomarmos um vinho
Diante do fogo das reminiscências.

sábado, setembro 09, 2006

Marte em Libra


Marte em Libra
Má pontaria na rotina.
Comecei o dia de porre
Não etílico
Basílico
Hesitativo
Pendurativo.
Vontade ficou na cama
Minha sombra desceu as escadas do quarto.
Sonâmbulo e meditativo
Curto o sol de setembro
Espero pela primavera
Observando vai-vem de calangos
Do jardim de cactos.

Quem sabe ELA

(a primavera?)
Chegue antes da chuva
Com seu alento
Soprado no vento
Como música lenta
Boa de dançar abraçadinho.

Hoje não quero pensar em nada

Fazer nada
Falar nada
Nem sorrir nem chorar
Manter os olhos abertos basta
Antenas da observação ligadas,
Suficiente.
Contento-me com a nota de rodapé
Com o pé de página da história
Deste Sábado ensolarado.

Hoje quero ser ingênuo,

Falar de amor como lema
De construção da civilização
Saudável, crítica, sem violência.
Ingenuidade não basta para distanciamentos
De mim mesmo.

Não sou triste nem pessimista:

Estou de porre a-criativo
A-amoroso
A-sexual.
Acalento a idéia da virada histórica
De todos os símbolos.

Que venha, Marte,

Dar sua volta em todos os signos.
Que venha para Touro,
Novamente.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Versos e reversos


Hoje tentei fazer tudo certo
Pinguei todos os is e até os jotas
Craseei os às corretamente
Coloquei vírgulas e ponto-vírgulas
nos bons lugares.
Segui as regras
Escrevi certo em linhas retas
Floreei alguns versos
Melodramei outros
Enxuguei frases molhadas
Reguei palavras secas
Mas nada saiu como previsto.

O texto saiu queimado do forno
O verso por demais apimentado
A estrofe ficou aguada
Não consegui beber a poesia socialmente:
embriaguei-me.
Troquei as chaves da frase explícita
Entrei pela janela do conto fantástico
Dormi no sofá da crônica enluarada.
Acordei com ressaca de romance policial.
Mas tenho no bolso um beijo
comprado na padaria da esquina.

Do cosmo ao caos



Do cosmo ao caos
viajo continuamente
através da poesia-elementos
de minha bagagem
mala de viagem
rumo ao frio das apresentações
em outros planetas
(onde se apresentam recitais
em praça pública).
Sensores de calango
avisam o perigo imininente.
Vou ao cosmo pedir proteção,
desço ao caos buscar pingos de vida
sem temores
pleno de amores-elementos
de minha outra bagagem
mala de viagem
rumo ao calor dos aplausos.


quarta-feira, setembro 06, 2006

eclipses e sofismas


Eclipse lunar
fragiliza piscianos
aviva questionamentos
agita
enerva
produz insônia
torna impossível a espera do amanhecer.

Levanto-me como lobisomem

caminho pelas ruelas tortas
de bairros periféricos belohorizontinos
assusto transeuntes.

Prefiro aconchegar-me no interior dos muros de pedra.

Companhia dos calangos
traz harmonia.

Passa o eclipse

(ainda bem, não são duradouros)
fantasmas desaparecem
mundo volta ao normal.
Tudo são sofismas
grandes cismas
das relações humanas.

domingo, setembro 03, 2006

Mulheres botões de rosas


Algumas mulheres são como botões de rosa
quando desabrocham
ou quando desfolham.
Nunca são flores naqueles momentos de calma,
de observação compenetrada,
quando amamos simplesmente o cheiro,
a cor,
a doçura,
a leveza,
o balanço ao vento.
Têm estes momentos também,
mas são,
principalmente,
movimento:
chegada ou saída;
para o alto ou para baixo;
brisa ou vendaval;
cumulus ou nimbus;
jazz ou chorinho;
comédia ou terror;
silêncio ou burburinho;
beijos ou mordidas;
gritos ou sussurros.
Ainda bem que gosto de cuidar de flores.
Desde quando nascem
até quando viram adubos.

Olhar em cacos


Cristal jogado ao chão se parte
em mil pedaços irrecuperáveis.
Cristalino dos olhos quebra igual.
Tentativas de recomposições do olhar
aumenta ou diminui astigmatismos.
Mas não deforma as formas nem as imagens
da mulher que queremos.
Apenas a vemos diferente
mas a queremos talvez mais.
É o olhar que se quebra
não a imagem.
Esta se recola em fragemtos
no fundo da retina.



A lata do poeta



Sou daqueles que lê manual de instruções.
Isso ajuda às vezes,
principalmente para dar aquele tempo
para que os afoitos pensem.
Para que serve o objeto?
E o amor-objeto, tem validade?
Ele cabe na lata do poeta?
Amor-capacho só serve para que dancem em cima
com sandálias de salto alto?
Se espremermos as paixões elas ficam vermelhas
e cremosas como massa de tomate?
Mistérios também tem data de validade?
Untarei-me com o creme dessas emoções.
Quem sabem ganho uma lambida!

sábado, setembro 02, 2006

regras da cosmologia



Boca desenhada em frutas
corpo magro maduro
carinho e timidez nos olhos
medo no semblante
vontades e coragem.
Sem acreditar
em próprias ações
Agiu.
E calou-se.
Medo de sua própria consciência?
Se não gosta das respostas
melhor perguntar de forma diferente:
regras da Cosmologia
O que fez para você mesma hoje?

Poesia depois do hosróscopo


Consigo escrever
depois de ler meu horóscopo
aquele pedacinho de fim de página.
Sou Peixes, signo terminal
escorregadio
cheio de fé e paixão
recebe emanações de todos os planetas, dizem.
Estamos mais fracos sem Plutão?

Branco súbito e silêncios doentios



Deu um branco súbito
Passei a enxergar tudo preto
Branco e preto são minhas cores
Excesso e ausência cromática
Visão de mundo
Esquecimento
Forma de sobrevivência
Esquecer para viver
Lembrar para morrer aos poucos.

Ainda sou amante dos silêncios
Todos os silêncios do mundo
Reunidos em meu pensamento
Conduziriam à vida eterna
Submerso em imenso nada?
Então aceito alguns barulhos:
Canto de pássaros
Som das águas
Vozes femininas em momentos de ternura
Algumas músicas
Para tecer a vida.

O que fazer com ruídos de cidades?
Que equilíbrio para cores e sons?

quarta-feira, agosto 30, 2006

Palavras do Rei



Não se perca
nas curvas da estrada de Santos
nem debaixo dos caracóis de meus cabelos:
palavras do Rei.

não se perca
entre as lutas fictícias entre o bem e o mal
certo e errado
qualidades e defeitos
luzes e sombras
branco e preto
jovem e velho
eu e você:
palavras das luzes urbanas.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Amor-capacho

Reorganizei meus pelos
Lavei-os com amaciante de roupas
Só para ser um piso macio
Para tuas sandálias
E teu salto alto.
Que deixem marcas profundas
Quando sapatearem sobre mim
Aquele jazz de New Orleans
Ressurgida de sua katrina
Com a dor dos furacões enraivecidos
Chorando as perdas de seus violões
E cantos roucos das ruas.
Mas tua dança
Sobre o amor-capacho
Não será de raiva,
Nem de vingança,
Será de esperança.
Estando em baixo
(por baixo nunca estou)
Vejo as curvas dos tornozelos
Sob um fundo azul
Vejo as estrelas e a lua
Se noite for.


segunda-feira, agosto 21, 2006

Razão e felicidade


Não quero ter sempre razão
Gostaria de sempre ser feliz.
Tenho sucesso nas duas proposições:
quase nunca tenho razão
por desacertos de minha inteligência
ou acertos de minha ignorância
(reivindico meu sagrado direito à ignorância)
e sou feliz por opção.
E bem-humorado por obrigação
e respeito ao outro.


domingo, agosto 20, 2006

INDIVÍDUO



Não sou liberal
não sou conservador.
Eu sou UM
INDIVÍDUO.

Não pertenço a tribos
nem a escolas
não escondo em trincheiras
não habito em guetos
não frequento igrejas.
Não caibo em panelas
embora seja sempre fritado.

Meu mundo cabe em minha mochila
onde tem um livro
um canivete
(todo homem devia ter um canivete
símbolo fálico poderoso
que trazemos desde a infância
vivida no interior)
uma chave de fenda
uma caneta
um caderno de anotações
(poesia não avisa quando vem)
um par de óculos
(presente do portal do tempo)
uma agenda
(sou homem de compromissos)
e muitas lembranças.

Não sou politicamente correto
sou a favor de cotas
odeio patrulhas
não filio a partidos
voto sempre nos contrários

à elitização nacional.

Não sou branco
não sou negro
não sou índio.
Sou pardo
sou mestiço
aquele que não parece nada
por ser mistura de tudo.

Preciso aprender sempre
para me desvencilhar de rótulos
das amarras
e ter pensamento livre.

Não sei rezar nem orar:
sou animista.

Meus animais de estimação:
uma onça pintada -
encontro-a regularmente,
ensinou-me sutilezas
de observação e convivência;
uma casal de saíras -
visitantes de meu jardim
cagantes em minha janela;
uma família de calangos -
predadores de insetos
de meu quintal.

Não me apego a objetos
não consigo carregá-los
em viagens e mudanças:
não moro três anos no mesmo endereço.

Não sei dar nó em gravata
evito cair em armadilhas
reais ou intelectuais.

AMO AS MULHERES!

OBJETOS I



Caos
se transforma em coisa
que se transforma em objeto.
Objeto em princípio é útil
depois torna-se inutilidade
quem sabe chega a arte.
Como arte se intala
até perder-se no caos.
Num futuro arqueológico
será arte de novo.
Para sempre, quem sabe?

sábado, agosto 19, 2006

Homens, fracassos e arte


Ao homem só resta a Arte.
Não existe harmonia
nem paz na natureza.
Luta pela sobrevivência é violenta
em qualquer planeta.
Flores explodem para nascer.
Arte também é violenta
ou se violenta.
Natureza romântica
é fantasia humana.
Criar jararacas e cascavéis
lucra mais que plantar soja:
e matamos nossas serpentes
como se encarnassem nossos diabos.
Mas os diabos são os outros
como são outros nossos fracassos.
Arte é sinopse e redenção dos fracassos.

paradoxos e incertezas


Pensamentos estreitos
não cansem vossas belezas
nem a minha.
Não tenho receita para corrigir rotinas
reescrever cotidianos
nem refazer frases mal elaboradas.
Minha cabeça vai bem obrigado.
Único problema ml resolvido
é que ela pensa de um jeito
eu faço diferente
só para contrariar meus pensamentos
testar meus paradoxos
explorar minhas incertezas
e ouvir frase de alguém:
- Eu não te entendo
mas te acho engraçado:
você me tranquiliza
e gasta seu tempo comigo -
Saiba meu bem!
Você é mais preciosa que meu tempo.


terça-feira, agosto 15, 2006

Simples



Questões filosóficas da modernidade
Mantém bases platonianas:
melhorar a rotina
manter-se belo e saudável
ter dinheiro para pagar as contas
tratar a vida com ética
cuidar de si e de alguém próximo
manter ganância do tamanho da fome
preparar o futuro no limite da esperança.

Tudo com toque de singularidade
Para não perder traços autorais
Dos atores das cenas cotidianas.


segunda-feira, agosto 14, 2006

(de novo)



Enquanto escrevemos em cima de um nada
tudo re-acontece no espaço vago em torno de mim:
meu time perdeu
(de novo)
minha mulher viajou
(de novo)
meu coração disparou
(de novo)
me encantei com os olhos da poeta
(de novo)
minha mãe me sorriu
(de novo)
minha filha me beijou
(de novo)
meus olhos merejaram ao ver meu pai feliz
(de novo)
sonhei com a deusa de trás da serra
(de novo)
a rola-moça pegou fogo
(de novo)
teus poemas me deixam em efervescência
(de novo)
versos despontam como pedras
atiradas pelos não pecadores
(de novo).
Mas confesso - não consigo parar de pensar
que eu possa encher os vácuos da vida
com estas frases ligadas
estas conversas amarradas
como redes de pescador
em busca de uma bela anchova
ou (quem sabe?) de uma sereia.
Se eu não fosse Ulisses
me perderia nessa Odisséia.


domingo, agosto 13, 2006

Sedução do nada



Não é o tudo que me seduz
O que me seduz é o nada
As saliências e as entrelinhas
O oco e o vazio.
Buracos me enchem os olhos
Terreno baldio brilha
Crateras parecem-me lindas
Abismo é encantador
Núcleo dos átomos
É uma ilhota
Em oceano de vácuo.
Espaços desocupados
Ausências e silêncios
Ícones de sedução
e da controvérsia:
Preenchê-los com a beleza
que eu queira
ou admirá-los
em desmatéria sólida?

sexta-feira, agosto 11, 2006

Lua em Peixes


Amor em baixa!
Mas com Lua em Peixes
Eu não me importo.
Irei nadando pelo éter
Até nosso pequeno astro.



quarta-feira, agosto 09, 2006

Pensamento migrante



Meu tempo parte num momento sólido
aquele onde o peso das horas entorta os ponteiros.
Sonhos sugados pelo buraco negro
permanecem vivos em mundos paralelos
em cabeças de nossos contrários perfeitos.
Gostaria de encontrar meu contrário perfeito.
Talvez nos anulássemos como matéria e antimatéria
E nos tornaríamos nada?
Não gostei de meu pensamento
mas não consigo controlá-lo,
ele voa mais que albatroz migrante entre brasil e áfrica.

Bocas queimadas

Quantas rupturas preparamos?
Quantos desastres previmos no ano anterior?
Um sem-número de separações litigiosas?
Arrancar a boca que eu beijei e jogá-la aos leões?
Eu moldei essa boca em barro,
queimei no forno e pintei.
Quero, na verdade, guardá-la mais um pouco.
Semana próxima eu a partirei em mil pedaços.
Contente?

Chuvas de metano


Chuva de metano em Titã
Lua de Saturno.
Quando Saturno passar por Peixes
deixará suas chuvas tóxicas
em meu universo de pedras
e jardim de cactos?

Que fronteiras entre ciência e ficção?
Arte precipita-me
com leituras tecnológicas, claro!
Meu desejo é expandir fronteiras
experimentar novas maneiras
mudar cenários com inspiração
escrever minhas letras com transpiração.

terça-feira, agosto 08, 2006

Minhas conjunções



Pontos e vírgulas, reticências...
Reminicências de uma oração sem sujeito
nem sujeito oculto.
Sombras de uma letra bordada
no coração do poeta
com agulha de crochê.
Aquele verbo mal dito
em hora imprópria
calou minhas orações subordinadas.
Restam-me conjunções.
Não sei o que faço com elas:
se as como com sal e pimenta
se amo-as desenfreadamente.


sexta-feira, agosto 04, 2006

Renascer tuas vírgulas


Irei catar teus cacos
reescrever teus rótulos
beber teu coquetel de asteriscos
sem diminuir teus arte-riscos
nem tua dose de verdade
remonto tua pele
e desenho nela
o nome de teu amado
com letra de bordado
cheio de pudores
pleno de pretextos
para renascer tuas vírgulas.


Olhos de águia



Vênus me oferece olhos de águia
para enxergar longe
ver se o caminho está livre.

Eu só quero ver o pôr do sol
E aquela boca em cerâmica
modelada por mim
Ontem depois do jantar.

Mambembes planos



Mambembes planos
de mudar de vida:
derreto-me no cenário.
Papo despretencioso na ribalta
escondem raras oportunidades .
Tento pescá-las
aperfeceiçoar compromissos
raros e espalhados.
Ainda quero amar mil mulheres.


Séculos vazios


O cair das máscaras embaralha
identidades e predestinações.
Em pleno século vinte e um
tiramos caixas dentro de caixas
na última caixa não tem um anel,
ela está vazia.
Século dos vazios?
Silêncio de conteúdos?
Aquela música sertaneja (sic)
no último ponto do dial de volume
de meu anônimo vizinho
obriga-me a tapar as orelhas.
Os loucos estão cada vez mais próximos
estranhamente próximos.
O mundo transborda destes bardos
desrespeitosos e maléficos.
Precisamos de novos destinos.