quinta-feira, outubro 26, 2006

Tesão de aprender



Tem coisas
que prefiro não saber
como fazer.

Se as sei,
faço-as superficialmente
automaticamente
sem pensar
em como fazer.


Se não as sei
faço-as indo ao fundo
de cabeça
para aprender a fazer
bem feito.

Aprender dá tesão.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Maldição latino-americana



Viver em lugar nenhum
ter senso de deslocamento
ser estrangeiro em qualquer lugar
é maldição latino-americana.

Viver é adaptar-se à solidão
transigir os afetos
transceder os solipsismos
fugir dos ruídos internos
buscar o silêncio dos amálgamas
das cáries dentárias
criar verosssimilitudes no cotidiano
singularidades no acaso.


Silêncio em cores



Silêncios plásticos
eloqüência dos vazios
vocação para o deserto:
aprendizagens com o envelhecer.

Aprender é mudar de comportamento
Morosidade e passos lentos
ganhos da terceira idade
na aprendizagem da convivência
com a lentidão dos calcanhares
com códigos de palavras não ouvidas
com a simbologia dos entreolhares.

Conviver com os silêncios
é sonhar em cores sérpia:
ouvir apenas os quereres
vindos do interior da epiderme
ou os rumores desenhados
nas contra-luzes das rugas
no rosto vincado de sabedoria.

Todos os mistérios vêm das sombras,
é na penumbra que nos desnudamos.
Tom pastel dos silêncios
brinca na memória dos bem vividos.

Sem cartas


Não posto mais cartas:
as envio por correio eletrônico.
Cartas para amigos da Europa
viajam dez dias.
Na perda desta sincronicidade
talvez mudemos de idéia
ou mudemos de humor
ou mudemos de cara.
Não carrego a mesma cara sempre.
Crescem-me o bigode
a barba
o cavanhaque.
Corto os cabelos
fico uma semana sem banho.

Cartas enviadas pelos correios
não contam aos amigos
estas variações de visagem
e de personalidade.


OITENTA ANOS



Pergunta para minha mãe:Quando a gente oitenta

A gente se tenta


Ou se senta?

domingo, outubro 08, 2006

BARREIRAS E FENDAS



A fenda não é a questão:
é o caminho
a vereda
a descoberta
o passo possível de ser seguido
a trilha a ser percorrida
apesar de toda imprevisibilidade
dos caminhos desconhecidos
a serem desbravados.


A questão é a fronteira,
a barreira a ser transposta
o obstáculo (in)transponível.
Superação da barreira
exige esforço
transpiração e inspiração:
limite e criação
onde arte e ciência se juntam.


sexta-feira, outubro 06, 2006

Memórias do futuro



Memórias do futuro
se escrevem agora
no esquecimento do passado
naqueles objetos perdidos
ao apagar das luzes do tempo de hoje
nas pegadas dos povos migrantes.

Esquecer é sobreviver:
lembrar?
apenas o que fazer

nos intervalos
entre pensar e agir.

O melhor do passado?
Ele passou,
algumas marcas evidentes deixou
tatuadas nos corpos

como rugas
como verrugas
como câncer de pele
como efizemas na epiderme
como brotoejas:
ou uma flor nos jardins das praças
das metrópoles dos fragmentos.

O futuro começa
no instante depois do verso
no primeiro beijo depois do encontro
na estória que se conta agora.

Amanhã visitei o caderno de viagem
escrevi um poema
sobre a memória de hoje.
Amanhã planejei
onde colocar meu passado:
que ele me perturbe não quero.

Memórias do futuro
suplementos da vida
complementos da alma:
aquela que provavelmente ainda terei
depois dos relatos de viagem
nos tempos de criar raízes.


domingo, outubro 01, 2006

Poema singelo



Se te dói o dente
mastigues gelo;
Se o espelho diz - feio,
mudes o corte do cabelo;
Se sentes frio à noite
deixes crescer o pelo
ou me uses como cobertor;
Se precisas de companhia
eu te cuido com zelo;
Se tens perguntas sérias
te respondo com desvelo;
Se me convidas para vadiar
vou tirando o chinelo
te banho em caramelo
te levo a sonhos em amarelo
outras cores eu tiro do prelo
para imprimir em teu corpo
sol nascente em castelo.
Amanhã, se nescessário,
desfazemos o elo
das correntes metafóricas
que nos une pelo cerebelo.