terça-feira, dezembro 04, 2007

CERTEZAS E INCERTEZAS


CERTEZA N° 01
As coisas nascem primeiro
nas mentes das pessoas,
depois elas acontecem.

CERTEZA N° 02
O que não existe como matéria e massa,
só existe nas mentes das pessoas.

CERTEZA N° 03
Fantasmas não têm matéria e massa,
então só existem
nas mentes das pessoas.

CERTEZA N° 04
As leis da natureza
também não têm massa,
portanto só existem
nas mentes das pessoas.

INCERTEZA N° 01
Se as leis da natureza não existem,
a não ser nas mentes das pessoas,
podemos transgredi-las facilmente?

CERTEZA N° 05
O tempo não tem massa, mas existe,
e pega emprestado
matéria de nosso corpo,
deixando-nos rugas, perdas e lacunas.

CERTEZA N° 06
A realidade, que pode ter massa,
não existe,
sua representação, que não tem massa,
sim,
e está nas mentes de todas as pessoas.

CERTEZA N° 07
A fotografia das massas das estrelas,
que não têm a massa das estrelas,
existem,
não só nas mentes das pessoas,
também nas telas dos computadores.

INCERTEZA N° 02
Se nós trocamos quase toda
a matéria de nosso corpo
a cada ano,
como podemos dizer
que somos os mesmos
do ano passado?

CERTEZA N° 08
Como alimentamos e excretamos
regularmente,
a troca da matéria existe,
e não está na mente das pessoas.

CERTEZA N° 09
A luz,
que pode ser ou não ser matéria,
existe,
não só na mente das pessoas
e ilumina-as.

CERTEZA N° 10
As ondas transportam energia,
não são matérias e não têm massa,
mas existem também
nas mentes das pessoas.

CERTEZA N° 11
A ciência e a arte não têm massa,
logo só existem nas mentes das pessoas.
A qualidade de nossa existência
(temos massa)
depende fundamentalmente
da pseudo-inexistência
da ciência e da arte.

INCERTEZA N° 03
A ciência e a arte,
pseudo-existentes,
são complementares, excludentes,
ou simplesmente independentes?

CERTEZA N° 12
As minhocas arejam
e fertilizam a terra,
logo, quem tem minhocas na cabeça,
têm o cérebro arejado
e fertilizado.

INCERTEZA Nº04
As mentes das pessoas arejadas,
com minhocas na cabeça,
são as que pensam nas coisas
e as fazem acontecerem?



quarta-feira, novembro 07, 2007

RELEITURA ROSEANA 06



O ignorado e o sabido se perturbam
mais que matéria e antimatéria
mais que o perdido e o achado
em meio à massa
no estádio de futebol de domingo.

O desconhecido e o verificado se estranham
mais que nuvem negra
no começo da teimosia da chuva
em querer vir não vem
deixando os ares desconcertados
em raivosos trovões.

Caminhos e descaminhos se desconfortam
nas entrelinhas da viagem
tanto quanto belezura e feiúra
também alegrias e tristezas
na desmesura das janelas
descortinando horizontes.

Mas coração de pai se enaltece
com ligeiras formosuras
e sabedorias evoluentes
de filhos e filhas se esparramando
na gastura das horas rubricadas.

Viver é querer apagar,
com o vento,
a luz elétrica da varanda
como se lamparina fosse.

terça-feira, novembro 06, 2007

ARES E MÚSICAS


Algumas músicas necessitam vento

para serem ouvidas.

As notas se orquestram bem


com o zumbido de ar


nas frestas das janelas.



Mas se a tempestade vem


melhor desligar o som.


Tempestades exigem silêncios


para serem melhor contemplados.



quinta-feira, outubro 25, 2007

Primeiro objeto



O primeiro objeto pode ser a mão
recipiente para colher a água
e beber
concha para pegar o grão
e comer
garra para acolher a mulher
e amar

O primeiro objeto pode ser o dente
ponta pronta para triturar
para morder
para dar de comer
ao filhote.

O primeiro objeto pode ser o pé

sentir o chão e por-se de pé
ver a bola e chutar
conhecer a estrada e caminhar
cair na água e nadar

incomodar-se com o pau da barraca
e mandar o mundo a outro lugar.

O primeiro objeto pode ser o nariz
de cheirar fragâncias
o primeiro objeto pode ser a boca
de oscular opulências
o primeiro objeto pode ser a língua
de lamber molemolências
o primeiro objeto pode ser a cabeça
de pensar e carregar abundâncias
o primeiro objeto pode ser o dedo
de apontar reticências
o primeiro objeto pode ser o pênis
de penetrar reentrâncias.

Entre nós e o mundo
coisas
artefatos
objetos
técnica
tecnologia
ciência
cultura
outro corpo.
Corpo-objeto
corpo-artefato.


Definições e perdas



Definições incluem perdas
assumem ausências
carências, ardências na pele,
querências.

Ao me definir me perco
ao me escolher, desapareço
ao aparecer, virtualizo-me
virtualizando-me, fluidifico.

Minha identidade
minha imagem
fotografia antiga em papel amarelo
ou retrato vivo na tela do computador.
Velhos se renovam.


Substantivos e outros substantivos


Você vai ao museu do relógio
para ver as horas?
Você vai ao museu da língua
para ver as falas?
Você vai à biblioteca
para ver o conhecimento?
Você vai ao templo
para ver deus?
Você vai à casa substantiva concreta
para ver substantivos abstratos?

Horas
falas
conhecimento
deus
abstratos
substratos do concreto edifício.

sábado, outubro 06, 2007

IMPONDERABILIDADES DE UM VERBO SÓ



Visto um terno
dou nó na gravata de seda
desço para a cozinha
faço arroz com feijão
como pão com manteiga e mortadela.
Miro a foto da morena
da serra morena
(será minha) e digo:
- eu dou nó na gravata
e como pão -
Simples assim
concreto assim
palpável assim.

Eu como pão com manteiga e mortadela
e arroz com feijão.
Depois faço do tirar a veste
um ritual pornofônico:
grito quando gozo.

Meus noventa quilos
pesam-me mais que o normal
não consigo emagrecer:
arroz com feijão,
pão com manteiga e mortadela
(de vez em quando acrescento
queijos, vinhos e picanhas na chapa)
o impedem.

Tento fazer poesia
escrevo imponderabilidades
de um verbo só.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Sangue e alegria


Sentimentos paradoxais:
oposição de simbolismos
em torno do mesmo fato -
fuga de meu pássaro preto
sangra e alegra meu coração.

Sangra
por flecha certeira
atirada em meu peito
sobre ferida há muito tempo aberta.
Para não manchar de vermelho
o assoalho de meu tapiri
coloquei uma tijelinha
a aparar o sangue
de minha veia aberta:
realimento-me antes que transborde.

Alegro-me
pela soltura das amarras
de meu pássaro engaiolado.
Agora ele voa em outros varadouros
sobrevoa outros seringais
pousa em outras moradas
das serras morenas
de lianes entrelaçadas.

sábado, setembro 01, 2007

sábado, agosto 25, 2007

coração de mergulhador


Eu te amo sem preâmbulo

eu te sigo sem cão de guia

sem bússola nem pedrinhas

para me mostrar o caminho de volta.

não tenho afta

mas leio kafka

e como tabule no jantar


e penduro meu coração no escafandro


para que ele molhe no mergulho.




RELEITURA ROSEANA 05



Na terceira margem
eu cismo
me encarrego de sofismas
desempalpáveis.

Na terceira margem
minhas coragens se anuviam
e se arrependem
do desembainho da faca
cortante.

Na terceira margem
a esperança
se desalumia
no despropósito
de tristes palavras.

Mas eu sorrio
sou rio
na terceira margem
do rio.
Sou peixe
desentoco
no fugidio da pesca
nos entretraços da rede
no desenlace da façanha
de remar
e remar
e remar.
Embora vou-me
para a margem do meio.

RELEITURA ROSEANA O4



Caminho ouvindo música

sigo até onde a canção me leva

desafobado

sossegado.

Calma artesanal

de quem fabrica vácuos

e cheira tolerâncias na atmosfera!


quinta-feira, agosto 23, 2007

O PÃO DO DIA



Hoje comerei o dia

salpicado de gotas de sol

regado a vinho do Porto.

Se estiver bom

como estará, eu creio,

partilha-lo-ei

com uma morena da serra

e a colibri de meu jardim.





quarta-feira, agosto 22, 2007

VINGT CENTIMETRES


Je suivis une femme dans les rues.

Peau claire, yeux noirs, cheveux noirs

corps fin, bouche grosse et plaine

et une très tremblante façon de marcher.

Métropoles multiple et polyvalent,

Il est difficile lier les gens à la ville.

Mais je la suivis par un détail:

une partie nue de son dos.

Vingt centimètres entre la mini blouse

et la ceinture de l’indigo blues.

Jolie dos

à bouger malicieusement

en marchant délicieusement.

Je la suivis par autant des rues

jusqu’au moment qu’elle entre

méfiante

dans une boutique.


SYNDROME DE VAMPIRE


Je m’amusait à me promener

dans les cimetières

à minuit.

Je m’habillait

de mon manteau noir

et avec mes grosses canines

je vampirait aux alentours

à séduire des jeunes filles

pendant mes courses noturnes.

Pour avoir une apparence normale

j’ai scié mes dents :

mais il me reste un énorme désir

par les beaux cols

et par le sang rouge

qui coule jusqu’à ma bouche

et qui apaise ma soif.


segunda-feira, agosto 20, 2007

sexta-feira, agosto 17, 2007

RELEITURA ROSEANA 03



Conversa de aranha não tece a teia
Calangos são quem me escutam
Linguajar de noturnas notas
Em minutos mansos da madrugada
Quando me aperfeiçôo em grandes causos
De se contar sem meias-palavras.

Arremesso-me nesses discursos
Arremedo-me nesses meus percursos
Com dotes de amansar leoas.
Asseguro-me que Marte não vire Lua
De encabular filósofos.

Neste passo vou me enveredando
Minha garça em graça de vôo até Viena
E a cana caiana se engarapa
De tão doce na garganta se encanela.
Um beijo estalante acalanta
No colo suave se assanha
Taramela de meu corpo se fecha
Encerrando sonhos e poemas acumulados
Em gavetas empoeiradas de minhas entranhas.



quinta-feira, agosto 16, 2007

RELEITURA ROSEANA 02


Tudo se amacia na tristeza
Pronto abandonada ao largo
Dos tristes trópicos:
Sei nada não.
Aquela saudade permanece abandonada
É na alegria que me reconheço!

Deixei minhas infâncias adormecidas
Naquelas matas montanhosas de minha cidade
De crescer e virar gente.
Maluquice de garoto amanhece o dia.

Quem me dera ver
O florescimento arrebatado
Daquele meio-dia?
Quantas horas de sol sobre a pele
De pintas e pelos de jaguatirica?

Quase felino caminho
Quase bicho cheiro
Quase mata verdejo
Quase peixe mergulho
Na clareza das águas rasas
Dos rios bronzes de pedra
Adormeço!



quarta-feira, agosto 15, 2007

ESPELHO, ESPELHO MEU



Espelho, espelho meu,
Não me olhes com esta cara
Fico com medo de ti.
Hoje amanheci azedo
Frustrado pelas desditas do Ontem
Ansioso pelos encargos do Hoje
Por favor, dê-me um sorriso!

Olhe-me com carinho
Enquanto faço a barba
E penteio meus já ralos e grisalhos cabelos
Senão parto-te em mil pedaços!
Arrisco-me a sete anos de azar
- é a maldição dos espelhos –
e uma mão cortada pelos teus cacos.
Teus cacos, não se juntam mais.
Estás condenado, espelho meu,
A mirar-me com alegria
Para o bem de nós dois.

segunda-feira, julho 23, 2007

RELEITURA ROSEANA 01


Sou feliz quando me descuido
de mim mesmo.

A gente se descobre nessas horas
fugidias
descompromissadas
descuidadas
em que os ponteiros se descolam dos relógios
e as clepsidras se inundam.

Quando o bom da gente
aflora sem querer
pois o ruim
está presente em todos os momentos.



sábado, junho 09, 2007

TEMPO REAL


Tempo real
é o tempo que desaparece.
Se o tempo desanuvia no espaço
o que resta?
O espaço?

Se a velocidade do tempo
suprime o espaço
a velocidade também
entra em extinção simbólica?

nem fim da história
nem fim da geografia,
tempo e espaço
almas gêmeas das territorialidades
sobrevivem em complexa simbiose,
em territórios ontológicos
ou reorganizados.

Tecnologias trazem
desterritorialização
das tribos sobreviventes:
as tribos sempre sobrevivem
em novos territórios
materializados à fórceps.


Catarses e emblemas



Campos sem girassóis não alimentam pássaros
amazonas desmatada ostenta deserto de ossos
horizontes negros de fumaça
de plásticos queimados
amortecem odores de dioxinas
Biocombustíveis dos paradoxos tecnológicos
mamonas assassinas dos campos e cerrados
movimentam vida de centros urbanos.

Mulheres pobres dos aglomerados

alimentam os filhos com balas carameladas
e batatas fritas de sacos plásticos coloridos.
Desnutrição embelezada
abastece dores de dentes cariados.

Alguns poemas são prévias de suicídios
catárticos e emblemáticos
evitam a dor (ou a antecipam)
da morte premeditada:
Ninguém morre só de palavras.
A boca e o sorriso da morena
passeando em minhas texturas
acalentam minha sanidade.
Escrevo poemas cáusticos
para sacolejar minhas alegrias.

Um dia aprendo a cantar uma música
e minha voz grave entorpecerá o ambiente.


terça-feira, junho 05, 2007

BRINCADEIRA DE DEUS ARTISTA

Esculpi uma boca na porcelana
dos pensamentos cotidianos
com cinzel e martelo
da oficina de projetos a serem patenteados.
Queimei-a no forno
das cerâmicas de altas temperaturas.
Sobre a peça reluzente
e ainda quente
pintei um sorriso deslumbrante
da cor de baton
entre o vermelho das paixões
e o claro dos amores serenos.
Deslumbrado com a beleza
da peça esculpida
como um miguel
anjo de tempos pós-modernos
disse - viva - e a beijei.
Surgiu uma linda morena
compondo a boca esculpida.
Brinco de deus artista
mas não fabrico mulheres em série.
Só as que convido para o amor.



quarta-feira, maio 23, 2007

BELEZA DAS PAIXÕES



Se eu acreditasse em deuses
Cristãos, muçulmanos ou umbandistas
E estivesse à beira da morte
Atropelado nas margens de uma estrada
Caminhos dos belos horizontes
E me fossem concedidos dez segundos
Para agradecer ao mundo pela minha existência
E convencer que teria sido boa gente
Que teria eu dito?
Teria eu louvado pelas mulheres
Agradecido por sua criação
Demonstração de inteligência e arte
Penitência divina pelas mazelas do mundo,
E dos homens principalmente.
Naquelas formas suaves
No traçado alongado de suas costas
Nas curvas arredondadas de ancas e seios
Na capacidade de doação e abandono
E, principalmente, no sorriso,
Sobrevivem a beleza das paixões.
Agradeceria por tê-las colocado na minha vida
Selecionado aquelas especiais
Para companheiras, amigas, amantes,
Alunas – denunciei-me
Passageiras de passos
Sem falar nos cachos dos cabelos.
Omitiria nesses dez segundos, eu sei,
Que se eu vier a renascer mulher
Lésbica eu serei.

segunda-feira, maio 21, 2007

SOL, SOU EU EM MAIO


Em maio eu não tenho medo de nada:
nem da solidão
nem da secura da garganta
nem de líquidos sobreviventes
que poderiam me afogar no largo da banheira
nem da ausência das mulheres em minha vida.
Em maio eu me caso comigo mesmo.
Não me basto, evidentemente: sou homem coletivo e plural.
Gasto-me em gestos
em dança
em caminhadas no seco sol da manhã.
Em despistagens das possíveis tristezas ambulantes:
Deixo que passem sem pouso em minha garagem.

O lado vazio de minha cama
Reclama
Não durmo de pijama e sinto frio.
Aponto apenas um fio
Para as águas do pequeno rio
Que deságua em minhas loucuras.
Sol, sou eu em maio.
Maio, sou eu ao sol.



HORTÊNCIAS SOB CHUVA ARTIFICIAL


As gotas são artificiais: chuvas que provoquei ao amanhecer. A luz do sol é natural. Já marcavam umas oito horas no relógio dos dias de quase inverno. Ah, eu sabia! ainda é outono. O que não quer dizer muita coisa nesta cidade das montanhas. Não temos inverno. O calendário de apenas três estações, fazendo diferença com boa parte do mundo, civilizado ou não (existe realmente uma diferença grande entre mundos civilizados e não civilizados?) não nos deixa nem um pouco diminuídos. A ausência de inverno nos presenteia com uma primavera mais longa. Com flores ao longo dos anos. Este pé de hortências me presenteia flores lilases esvaecendo aos poucos por longos períodos. Além disso, o sol de metade do ano me abastece com belos pôr-de-sóis, lindos amanheceres, noites estreladas, um pouco de fumaça no horizonte (isso por conta de estúpidas queimas de vegetação e lixo). E as chuvas da outra metade do ano garante a umidade necessária aos pobres solos tropicais. Quero olhos de ver coisas tão belas e sensibilidade para percebê-las, e fotografá-las.

quarta-feira, maio 16, 2007

OLHAR SOBRE FLOR Nº 01

Esta não é uma imagem de arquivo. Ela existe em meu jardim. Começa seu processo de degradação natural, como se pode ver em suas pétalas mais centrais. Ainda posso observa-la, todos os dias, logo depois do nascer do sol. Em um momento do dia, ela tem essa cor, essa tonalidade, esse brilho que a faz eterna, embora seja uma flor no ocaso de sua existência. Luz e sombra e seus encantos naturais. Ou meu olhar através das lentes (fenda número 5)colocam um pouco de mim nesta imagem.




quarta-feira, maio 09, 2007

SOU VIL, SOU MIL



mil loucuras cometo
cada dia
que não publico
um poema
uma fala inválida
um som preso na garganta
uma nota solta no espaço.
há dois meses sou louco
preso nos castelos de palavras
e de flâmulas de um time perdido.
sou fraco
com topete grandioso.
sou vil
com vontade
de ser magnânimo.
sou mil
embora quase nada.




segunda-feira, março 19, 2007

FENDAS: TODA MEDIDA É UMA FARSA

FENDAS NÚMERO I

Medidas em sistemas do universo:
Temperatura com termômetros,
Velocidades com velocímetros
Voltagens com voltímetros
Vazão de fluidos com hidrômetros
Fluxo sangüíneo com catéteres
Aneurismas com aparelhos de ressonância
Outras medidas com outras sondas.
Problemas inerentes: alteração do estado do sistema
Entre sondas e incertezas nas medidas
- realidade e modelização.
Realidade inatingível, reconhecimento impossível:
Interação entre sujeito (através da sonda)
E objeto (sistema do universo) altera ambos
Sujeito e objeto se reconstroem.
Saída estratégica: modelizar o visível e o mensurável
Teorizar sobre propriedades intrínsecas.
Toda medida usa uma sonda
(o olhar é uma sonda)
Em toda observação uma sonda penetra uma fenda
(o outro olhar é outra fenda
através da qual se quer conhecer a alma).
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO II

Difração da radiação:
Luzes policromáticas
Luzes monocromáticas
Enveredam-se em frestas e fendas
Naturais ou artificiais
Buscam um caminho além das paredes
Espalham-se atrás de barreiras e fendas
Iluminam onde se esperavam sombras
Monocromos ou policromos onde se imaginava negro.
Problemas inerentes: tamanho das fendas e das (s)ondas
Exigência de compatibilidades
– luzes e fendas, transformação.
Toda fenda é penetrável:
Mínima que seja
Há sempre uma radiação que a perpassa.
Toda barreira é violável:
Matéria é somatório de fendas
Organizadas como redes, filtráveis.
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO III

Radiação de corpo negro:
Negros são comedores de luzes
Esponjas de todas as radiações.
Brancas, pardas, morenas, amarelas,
Ou inusitadas como vermelhas e azuis
Não importa a cor da luz penetrante
O corpo negro a absorve
E só devolve um tanto de calor.
Problemas inerentes: o negro seria invisível
Como observa-lo se ele devora a luz da observação
Como conhecê-lo se ele come a lanterna da razão?
- Inexistência do corpo negro ideal, simulação.
Criamos um objeto, esférico,
Portador de uma fenda
Espelhado por dentro
O denominamos negro.
Absorvedor de luz pela fenda
Irradiador de calor pela superfície:
Toda cor é um simulacro
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO IV

Buracos negros do universo
Grandes fendas da cosmologia
Grandes mistérios da astronomia
Grandes bocas que tudo ingerem:
Objetos, poeiras cósmicas, luzes.
Problemas inerentes: ingestão sem digestão
Acréscimo de peso, decréscimo de volume
Densidade infinita.
- Ausência de informação, especulação.
Que fossa densa é esta?
Buraco mais negro que o corpo negro
Grande absorvedor de matéria
Provocador de alucinações
Mundos paralelos e outros elos.
Toda investida é permitida
Toda medida é uma farsa.

FENDAS NÚMERO V

Produção de Imagens de mil cores:
Lentes também são fendas
Por onde passam mil luzes
Microscópios e telescópios
Luzes próximas, luzes distantes
Máquinas de filmar e de fotografar
Movimentos e silêncios
Magias das imagens
Em vinte e quatro quadros por segundo:
Cinema também é arte através das fendas?
Problemas inerentes: tecnologias de produção
De areias a vidros, de vidros a lentes
Trapaceiam os olhares
Enganam emoções e pensamentos
- movimentos e fendas, imaginação.
De micro matérias a naves espaciais
De morros uivantes a rios bravos
Dos negros de berger
Às contraluzes de salgado
De poemas holográficos à vídeo arte
Todas imagens mil palavras
Todas as farsas são bem medidas
Todas as fendas têm suas sondas
Toda medida é no mínimo uma farsa.

SOBRE FENDAS E BARREIRAS

A fenda não é a questão:
A fenda é o caminho
a vereda
a descoberta
o passo possível de ser seguido
a trilha a ser percorrida
apesar de toda imprevisibilidade
de caminhos desconhecidos
a serem desbravados.
A questão é a fronteira,
a barreira a ser transposta
o obstáculo (in)transponível.
Superação da barreira
exige esforço
transpiração
inspiração
limite e criação,
modelização
transformação
simulação
especulação
imaginação.
Arte, ciência e tecnologia
se abraçam.

FENDAS, BARREIRAS E MEDIDAS

Função de artista:
criar universos paralelos
inusitados e instigantes
convites à imaginação e devaneios
com passagens indizíveis
através de fendas
invisíveis
a quem não tem olhos
de ver o indefinível.
Mas as fendas existem
na curvatura dos universos
nas ranhuras das peças
no caminho das luzes
nas veredas das frases
nas margens das músicas
entre formas suntuosas
nos cortes das superfícies ilimitadas
nos pontilhados negros dos desenhos
nas esculturas cravadas no espaço
no movimento imprevisível dos corpos.
Sem fendas não tem arte
nem artista.
Nas fendas das artes
penetra o insondável.
Sem fendas não tem ciência
nem cientista.
Nas fendas das ciências
penetra o visível
ampliando rupturas
nos hímens permeáveis
das barreiras
outrora intransponíveis.
Toda medida é uma farsa
Toda farsa é bem medida
Farsa em boa medida
Refaço com imaginação
Em todas as fendas do universo
Com palavras
Tintas
Pedras
E sonhos.

terça-feira, março 13, 2007

OUSADIAS QUASE OUTONAIS



Ouso dizer
que atravessas os caminhos
por onde passo
nessas manhãs quase outonais.
Sol incendeia meus pensamentos
enche de calor certas frases:
- um dia ousarei te dizê-las.
Enquanto a chama da ousadia outonal não vem
cruzarei anonimamente tua silhueta,

soprarei
como leve brisa
teus ruivos cabelos.
Ouse bem.
Escute, enquanto caminhas,
palavras dos rios e dos ventos.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Sobre as metáforas

Objetivo das metáforas
é assustar pessoas:
dizendo que pode acontecer
algo muito pior
que aquilo que pode acontecer
ou acontecerá
de fato!

Azar dos poetas!

nem poeta nem gênio

Mostrei poemas
a um artista plástico amigo meu
radicado em Tiradentes
anos 90:
- Publique-os
e serás um poeta conhecido.
Reescreva-os
e serás um poeta genial.
Nem coisa nem outra
nem leitores
nem afagos da academia.
Continuo escrevendo como um besta
seguindo velhos institntos:
lufada de inspiração
caderno abre sozinho
tinta de caneta se derrama em letras.

Primeira Lembrança


Primeira lembrança
de minha existência:
correndo de avião,
na frente do avião.
Dois anos e meio
família passeava no aeroporto
cidade de interior norte de Minas
quando se podia passear pelas pistas
pequeno avião resolve pousar
na pista de passeio da família:
correria.
Lá vem o avião para cima de nós.

Comecei a viver
(tempo da memória instalada,
eu lembrando de mim mesmo)
querendo jogar pedra no avião.
Pedras e aviões se eternizam
no universo material de minhas imaginações.




segunda-feira, janeiro 22, 2007

Verdades

Verdades cheiram
A flores em queda no outono
Perdem-se no chão
Varridas para canteiros de jardins
Viram adubos
Apodrecem
São esquecidas.
Renascem em flores na primavera
Outras cores
Outros odores
Florescem versões
Releituras de fatos acontecidos
Na estação anterior
Re-passados a limpo
Re-contados
Novas verdades
Nascidas nas sombras
Das mesmas árvores
Novas folhas
Pequenas luzes em nossas memórias
Estórias
Novos enredos
Roteiros de uma peça antiga
Cantada nos palcos
Verdades se renovam
Necessário vivê-las e revivê-las
Dramatizá-las
E cobrir lacunas
De nossa existência.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Na terra do João




Na terra do João Guimarães
rosas inspiram
transpiram
suspiram
entre causos
e brotam
entre os seios
das moças.




Valências



Nem todas as carências
nem todas as ardências
nem tanto quais prudências
servir na mesa do café das aparências.

Mas... as urgências
sobrepujam minhas proeminências
rastejam entre minhas vivências
sacodem minhas premências
soletram minhas redundâncias.

Para onde envio, sem ganâncias,
minhas rudes malevolências?