quarta-feira, fevereiro 29, 2012

OBJETOS 36


Objetos de uso pós-pluviosidade:
tesoura para podar folhas emaranhadas,
lixas para alisar paredes úmidas,
parafusos para pendurar armários trágicos,
réguas para medir coincidências inexplicáveis
(todas as coincidências são inexplicáveis).

MÃE TINHA QUE SER DIFERENTE


Mãe, tinha que ser diferente.
Plantar sementes não palavras,
colher flores não futuros,
trocar afetos não olheiras
tecer tricôs não arranjos vocais,
coar cafés não artimanhas
iluminar veredas não fossos.
Mãe tinha que ser diferente:
Produzidas em série
na cidade industrial
ao lado da fábrica de automóveis.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

SER CONTEMPORÂNEO


Contemporaneidade
é o presente que foge,
escapa entre os dedos:
quer ser futuro
sem pensar no amanhã.
Ser contemporâneo
é ser deslocalizado.
Ser vácuo sem ser vago.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

CURTA 147


Na minha rua estão as mesmas casas.
No entanto, é outra rua.
Outros tempos: outros lugares.
A cidade de minha infância,
hoje, tem apenas o mesmo nome.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

OBJETOS 35


Objetos para abraçar fevereiro:
samba-enredo para animar carnavais;
belugas para povoar mares do norte;
retortas de Rousseau para crianças;
pêndulos para adiantar o tempo,
aquele segundo bissexto da discórdia.